Entrevistas
Entre os anos de 2007 e 2008 fiz algumas entrevista com blogueiros de renome nacional para discutir com eles o crescimento da blogosfera brasileira e a força dos blogs enquanto nova mídia em ascenção. Abaixo disponibilizo todas as entrevistas para que você possa ler alguns dos melhores blogueiros do Brasil têm a dizer sobre o assunto. Boa leitura!
Entrevista com Ediney de Souza (10 de outubro de 2007)
Uma conversa com Interney
O nosso entrevistado de hoje é um blogueiro ilustre: ninguém menos que o problogger Interney (Edney de Souza). Mantivemos contato com ele por e-mail no final da semana passada propondo a entrevista [as perguntas foram enviadas de imediato para ganhar tempo] e, gentilmente, ele nos respondeu já enviando as respostas aos nossos questionamentos. Valeu a pena esperar. A conversa com Interney foi das mais proveitosas.
Se há algum leitor de blog que ainda não sabe, Edney de Souza (ou Interney, como ele ficou conhecido da blogosfera) é um o mais bem sucedido problogger do Brasil. Ele é, na verdade, um dos blogueiros mais conhecidos do mundo, chegando mesmo a ter sido destaque da revista Wired, tida como o “oráculo da inovação” no Vale do Silício. Interney também foi destaque na edição da revista Época, de 31 de julho de 2006, que trouxe o assunto blog como tema principal da sua capa.
Ele acaba de fechar uma importante parceria com o portal IG [toda a blogosfera já sabe disso, mas não custa repetir, hehehehe], demonstrando que tratar a ferramenta blog com dedicação e profissionalismo pode dar resultado sim.
Sobre a questão da independência de publicação ele é enfático ao afirmar: “Um blogueiro só terá independência de publicação se registrar domínio próprio e pagar hospedagem, serviços gratuitos são interessantes para brincar e explorar a blogosfera, se o blogueiro deseja levar adiante um trabalho mais sério fuja dos serviços gratuitos”.
Confira a entrevista:
Verbalize – O que mudou na sua vida, depois que você passou a ser um empresário da blogosfera?
Interney – Passei a trabalhar mais do que antes.
Verbalize – Apesar de recente, a parceria com o IG já tem dado bons resultados?
Interney – Sim, a visitação dos blogs do InterNey Blogs (IB) aumentou e o site todo passou a contar com um pouco mais de credibilidade.
Verbalize – Aliás, qual é a base dessa parceria?
Interney – http://www.interney.net/?p=9760587 [indicou este link do post no qual explica as bases da parceria]
Verbalize – Esse interesse dos portais e jornais impressos pelo trabalho dos blogueiros de maior destaque, na sua opinião, é um sinal que a imprensa “convencional” cansou de bater cabeça contra os blogs?
Interney – Alguns cansaram de bater cabeça, outros não, outros ainda nunca bateram cabeça, na minha opinião são movimentos isolados que não tem como definir o todo: O Estadão fez um debate com blogueiros, a Globo.com lançou o BlogLog e o IG fechou parceria com o InterNey, existem vários outros jornais e portais que ainda não participaram, não dá pra definir uma tendência.
Verbalize – Você, que é um dos pioneiros como problogger, acredita que surgirão ainda muitos empresários da blogosfera?
Interney – Sim. Eu espero que isso aconteça pois para que blogs sejam vistos como um mercado é necessário que existam mais players.
Verbalize – Sobre a questão dos anúncios em blog, qual a melhor maneira de atrair anunciantes para essas páginas?
Interney – Ao invés de esperar que as agências descubram blogs faça-se descobrir elas agências, compute sua audiência, organize seu layout, identifique seu público, monte um mídia-kit e vá a luta. Atualmente estou no processo de desenvolvimento do novo layout e em seguida do mídia-kit.
Verbalize – E mais: os blogs serão capazes de atrair a atenção dos anunciantes a curto prazo?
Interney – Se seguirem as dicas que acabei de dar a resposta é sim.
Verbalize – Num ambiente em que milhares de páginas são criadas diariamente, qual a receita para se sobressair na blogosfera, uma vez que não há leitores para todo o conteúdo produzido na rede?
Interney – Leitores vão filtrar o conteúdo a ser lido, você tem que passar por estes filtros: qualidade e visibilidade são a chave. Não adianta estar em todo lugar e ter o conteúdo ruim, você será filtrado. Não adiante ter um ótimo conteúdo e ter um blog desconhecido, é preciso maximizar esses parâmetros.
Verbalize – Os números do Comitê Gestor da Internet e do Censo do IBGE mostram uma realidade segundo a qual ainda há muitos excluídos digitais no Brasil. Diante desse quadro, qual o caminho para atrair a “pequena” parcela de internautas para a leitura de blogs?
Interney – Prefiro os números da recente pesquisa da DataFolha que incluem os internautas que acessam web no trabalho e em lan houses, o público é bem maior do que essas instituições imaginam: http://www.bluebus.com.br/show.php?p=2&id=78407
Sobre dicas de visibilidade: http://www.interney.net/?p=9757439
Verbalize – Jornais como O GLOBO e Estadão, para citar apenas dois dos mais expressivos, estão “recrutando blogueiros” para escrever seus cadernos de informática. Esse movimento de “atração de blogueiros” para a “mídia convencional” tende a se intensificar, na sua opinião?
Interney – Errado, estão recrutando colunistas para transformarem suas colunas em blogs, ou você conhece algum blogueiro de verdade lá que eu desconheça? Se você fala do pessoal do NoMínimo que foi para o Estadão, apesar de usar o formato blog nunca exploraram o verdadeiro potencial de conversação que os blogs carregam, ainda são jornalistas tentando se adaptar aos novos tempos.
Verbalize – Como você vê a questão de censuras a blogs, como foi o caso da blogueira Alcinéa Cavalcante, do Amapá, que no ano passado teve o seu blog tirado do ar pelo UOL, e já acumula meio milhão de reais em multas aplicadas pela Justiça Eleitoral?
Interney – Sugiro a leitura deste post sobre o caso: http://www.interney.net/blogs/inagaki/2006/09/03/como_a_campanha_xo_sarney_se_espalhou_pe/
Ao contrário de alguns artistas que, ao se tornarem mais conhecidos, se imaginam experts nos problemas políticos, sociais ou econômicos do país, eu não tenho tal ilusão. Sobre o caso apenas posso tecer comentários sobre as questões técnicas.
Um blogueiro só terá independência de publicação se registrar domínio próprio e pagar hospedagem, serviços gratuitos são interessantes para brincar e explorar a blogosfera, se o blogueiro deseja levar adiante um trabalho mais sério fuja dos serviços gratuitos.
Moderar comentários é uma necessidade, qualquer personalidade ou empresa pode alimentar um post com comentários caluniosos e depois entrar com um processo contra calúnia/difamação e/ou perdas/danos. Além de moderar comentários alguns blogueiros precisam moderar a língua. Dizer que fulano é ladrão sem que ele tenha sido condenado é calúnia e passível de processo. Porém você pode relatar fatos que indiquem atividade suspeita e sugerir a polícia deva investigar o que realmente se passa. Mas lembre-se bem, relatar FATOS e não suposições.
Verbalize – A propósito, você considera que a blogosfera brasileira já está madura o suficiente para fazer frente aos veículos de comunicação tradicionais?
Interney – Não, e nunca estará, não é objetivo da blogosfera fazer isso, muita gente quer criar um blog para publicar piadas e vídeos divertidos. Porém, alguns blogueiros já têm maturidade suficiente para isso e cada vez devem surgir mais blogs com essa vocação. A blogosfera é caótica e possui níveis de maturidade variados entre os milhões de blogs existentes, não temos como reduzir ou equalizar essa massa a definições simplistas.
Verbalize – Este ano, “pipocaram” encontros de blogueiros em vários lugares do Brasil. Como você avalia esse movimento que busca fazer uma autocrítica, além de buscar novos caminhos para a monetização e ampliação da audiência dos blogs?
Interney – Esses eventos mostram que o interesse pela blogosfera cresceu muito, porém há muita desinformação sobre o que é de fato importante, antes de monetizar um blog é preciso cativar uma audiência, antes de cativar uma audiência é necessário pensar seriamente na produção de conteúdo. Tem gente que odeia Redação e acredita que sobreviverá produzindo blogs. É uma ilusão e parece que nessa busca por autocrítica as críticas ainda são bem leves.
Verbalize – Para terminar, qual os blogs que você ler diariamente?
Interney – Não tenho um roteiro pré-definido de blogs para ler, eu leio os blogs do Interney Blogs checo as referências que eles indicam e costumo pesquisar no Google BlogSearch sobre alguns assuntos e ver os últimos posts escritos. Leio quase 100 blogs por dia, mas nunca são os mesmos.
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Entrevista com Ana Carmen Foschine (24 de setembro de 2007)
Ana Carmen: a blogosfera brasileira vive um momento ascendente
Como havia prometido há cerca de duas semanas, vou começar a publicar aqui uma série de entrevistas com blogueiros famosos e estudiosos da blogosfera. A nossa primeira conversa é com a jornalista e escritora Ana Carmen Foschini, autora do livro “Blog“, da coleção “Conquiste a Rede”, escrito em parceria com o também jornalista Roberto Romano Taddei.
A entrevista com Ana Carmen foi feita por e-mail. Depois do primeiro contato e uns dois dias de espera, ela deu retorno à minha solicitação de entrevista, dizendo que topava sob a condição de ter que editar algumas perguntas, pois considerou a lista de questões muito extensa.
“Minha timidez e a paciência dos leitores são limitantes para uma conversa tão extensa assim…”, justificou Ana. Bom, na verdade, Ana Carmen escolheu as perguntas que queria responder. A lista de questionamentos era bem mais extensa, mas a qualidade das respostas compensam aquelas perguntas que não foram respondidas. Vale ressaltar que algumas das questões que ficaram sem resposta diziam respeito ao trabalho e à vida profissional da entrevistada. Talvez este tenha sido o motivo da alegada “timidez”.
Entrando no assunto da entrevista propriamente dito, Ana Carmen considera [como não poderia ser diferente] a questão da credibilidade central tanto na grande imprensa, como na blogosfera. Porém, diz que nesses dois universos comunicativos essa questão não estará jamais resolvida. Ela também questiona a crença de que os blogs estão conquistando cada vez mais a confiança dos leitores/internautas.
“Muitos internautas, principalmente abaixo de 25 anos, segundo estatísticas de acesso à internet no Brasil, costumam procurar informação por meio dos buscadores e muitas vezes caem em blogs através do resultado de sua busca, sem exigir muitas credenciais de sua fonte de informação. Isso mostra que boa audiência nem sempre é decorrente de credibilidade”, pondera a jornalista.
Abaixo segue a íntegra da entrevista [ou das respostas dadas pela jornalista] a este blogueiro:
Verbalize! – O blogueiro americano Hugh Hewitt diz em seu livro “Blog – Entenda a Revolução que Vai Mudar Seu Mundo” – que, diante da crise de credibilidade da “mídia hegemônica”, os blogs se colocam no papel de veículos de comunicação que estão conquistando cada vez mais a confiança do público. Você concorda com isso?
Ana Carmen – Eu acho que a questão da credibilidade é central tanto na grande imprensa quanto na blogosfera. Em ambas, ela não estará jamais resolvida, uma vez que credibilidade é algo que se constrói com o tempo e que pode ser destruído em um instante. Blogs são uma forma de comunicação entre pares e realmente conquistam um público cada vez maior. Mas dizer que os blogs conquistam cada vez mais a “confiança” do público já é algo diferente. Muitos internautas, principalmente abaixo de 25 anos, segundo estatísticas de acesso à internet no Brasil, costumam procurar informação por meio dos buscadores e muitas vezes caem em blogs através do resultado de sua busca, sem exigir muitas credenciais de sua fonte de informação. Isso mostra que boa audiência em sempre é decorrente de credibilidade. Acredito que os blogs são fonte de informação e ganham espaço com a diversidade de pontos de vista que oferecem. Confiança e credibilidade ainda são questões delicadas – tanto na blogosfera quanto em grandes veículos de comunicação.
Verbalize! – É também de Hewitt a afirmação de que a blogosfera está operando uma revolução na comunicação que tende a mudar o mundo. Você concorda com ele?
Ana Carmen – Empresto um trechinho do livro “Blog”, que faz parte da coleção “Conquiste a Rede”, que escrevi ao lado de Roberto Taddei, para responder a esta pergunta: “Ferramentas de publicação acessíveis na rede revolucionaram o modo como as pessoas consomem, interpretam, produzem e divulgam informações. Elas permitem ao internauta de ser um receptor silencioso para tornar-se criador. Falamos sobre as principais ferramentas que contribuem para a descentralização da produção: blogs, podcasts, flogs e vlogs”.
Comunidades virtuais e outras formas de comunicação como torpedos e os comunicadores instantâneos também são parte dessa revolução. A blogosfera é uma das faces – bastante importante – das mudanças na comunicação.
Verbalize! – No livro Blog, que você escreveu em parceria com Roberto Romano Taddei, você afirma que “participar desse novo universo [blogueiro] é uma questão de cidadania”. Na sua opinião, os blogueiros brasileiros, digo os não-jornalistas, estão sabendo utilizar o poder democratizador que emana da blogosfera?
Ana Carmen – Eu acredito que sim. O fato de os blogs veicularem opiniões variadas sobre os mais diversos assuntos em si já é um motor da democracia. Não é preciso discutir política, nem questões cívicas ou ligadas à cidadania para exercitar a pluralidade de opiniões.
Verbalize! – Por outro lado, e ainda com base nas suas afirmações feitas no livro Blog, os blogueiros brasileiros estão conseguindo utilizar essa nova mídia para produzir conteúdo de qualidade?
Ana Carmen – Eu vejo a blogosfera brasileira no início de uma etapa. Ela ainda não tem a maturidade da blogosfera americana, por exemplo, onde as informações científicas sobre novas pesquisas – informação de primeiríssima qualidade, portanto – circulam primeiramente em blogs. Estamos no momento anterior. Mas vejo um movimento ascendente dos blogs brasileiros, rumo a essa maturidade já encontrada em outros países.
PS – A coleção “Conquiste a Rede” é composta pelos livros Blog, Podcast, Flog e Vlog e Jornalismo Cidadão.
PS1 – A foto que ilustra esta entrevista foi “chupada” do site da entrevistada.
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Entrevista com Pedro Serra (1º de outubro de 2007)
‘Blogueiros são formiguinhas com megafone’

A entrevista desta semana é com o jornalista, professor de inglês e português para estrangeiros e DJ de música eletrônica, Pedro Serra. O blogueiro mantém a página Na Média, na qual escreve sobre Jornalismo, Marketing, Publicidade e afins. Eu descobri o Pedro a partir de um comentário que ele fez na entrevista com a Ana Carmen Foschini, postada aqui no blog, semana passada, e decidi entrevistá-lo, uma vez que ele também se mostra interessado em entender cada vez mais esse fenômeno que é a blogosfera.
Para Pedro Serra, a blogosfera abriu espaço para a quem antes falava para as paredes. Os blogueiros, na sua visão, são “formiguinhas com megafones” que fazem muito barulho. No seu Na Média, Pedro diz que se transformou em blogueiro porque “sempre gostei de escrever e sempre gostei muito de analisar as coisas”. Nesta entrevista ele confessa que fez várias tentativas de manter um blog, mas sempre acabava abandonando o projeto. Dessa vez está levando a empreitada adiante.
Aqui conversamos sobre os assuntos do momento na blogosfera: credibilidade dos blogs, as investidas da mídia convencional para firmar parcerias com blogueiros [depois do Estadão nos comparar a macacos que apenas fazem Ctrl C/ Ctrl V em conteúdos sem importância], democratização da comunicação trazida pelos próprios blogs e sites colaborativos, entre tantas outras questões que dizem respeito à blogosfera.
Sobre a tal isenção da imprensa no Brasil, Pedro Serra tasca a seguinte observação: “No Brasil ainda tem a questão das concessões. Antônio Carlos Magalhães, antes de morrer, detinha o controle de diversas concessões de rádio e televisão na Bahia, os Sarney no Maranhão, os Collor de Mello em Alagoas. Por meio de testas-de-ferro, Jader Barbalho tem concessões de rádio. Renan Calheiros também. Isenção [qual]???”. A monografia de Pedro foi sobre Jornalismo Investigativo, tomando como base o caso do assassinato do jornalista da Rede Globo, Tim Lopes. Vamos à entrevista, então:
Luiz Valério – Para começar, como, quando e por que você se tornou blogueiro?
Pedro Serra – Eu já havia feito algumas tentativas de manter um blog, mas sempre acabava abandonando o projeto. Acho que ainda não tinha encontrado o modelo ideal de página que eu queria. Em agosto resolvi que era a hora e criei logo dois. Primeiro veio o Na Média, onde falo de Jornalismo, Marketing, Publicidade e afins. Logo depois criei o Sem Destino, sobre turismo.
O primeiro eu criei para me manter atualizado sobre esses assuntos, para dar vazão aos meus pensamentos (e parar de encher o ouvido dos meus amigos com eles) e para fazer contatos, já que com o blog acabo conhecendo muitas pessoas da minha área. O Sem Destino eu criei para escrever sobre um assunto que eu gosto muito e para poder “viajar sem sair de casa”.
Luiz Valério – Como você avalia a polêmica criada pelo Estadão em torno da suposta “inutilidade” e falta de credibilidade dos blogs?
Pedro Serra -É uma visão retrógada do jornal, que com isso apenas demonstra não ter o menor conhecimento do que acontece na internet hoje em dia. Quando dou uma passeada pelos blogs e vejo o conteúdo da maioria deles, fico feliz de ver que são poucos os que se encaixam naquela descrição que o jornal fez deles. E os que se encaixam, você meio que já nota de cara, pois são desleixados com a aparência, ou têm muitos erros de português, ou já são tendenciosos no título de seus posts. Mas acredito que desses a própria “seleção natural” se encarregue, ou seja, os próprios leitores já sabem identificar esse tipo de blog e fogem deles.
Luiz Valério – Você não acha que faltou um pouco de reflexão, por parte de quem pensou a campanha do Estadão, sobre a questão da credibilidade e das mancadas cometidas pela chamada “imprensa hegemônica”?
Pedro Serra -O Estadão esqueceu de olhar para o próprio rabo quando fez esses anúncios. Porque a comparação entre eles e o que acontece na mídia impressa hoje em dia é inevitável. Por exemplo, aquele do macaco que copia e cola textos… bom, os jornais fazem a mesma coisa quando publicam, quase que na íntegra, mudando apenas uma vírgula ou outra, os releases de assessorias de imprensa. O outro, dos dois rapazes ruivos que, tendenciosamente, fazem um texto afirmando que os ruivos são os melhores amantes… o mesmo acontece nos jornais, que estão presos a interesses comerciais e políticos e trazem isso para seus noticiários. E para terminar, tem aqueles veiculados na mídia impressa sobre as dicas de psicologia e comportamento do Moacir (um cara que se veste de Batman), ou de praia do Guto (um branquelo), ou sobre mulheres do Fredão (um cara que não deve pegar ninguém). Aí, podemos comparar que os jornais cada vez mais se baseiam em fontes e menos em apuração. Quem sabe as dicas que eles andam recebendo sobre os mais variados assuntos não são também de pessoas como o Fredão, o Guto e o Moacir???
Luiz Valério – Quais os blogs que você lê diariamente?
Pedro Serra – Eu não tenho blogs específicos. Geralmente pesquiso as tags que me interessam e vejo os posts. Até porque gosto de assuntos muito variados, então prefiro surfar pelas páginas ao invés de me ater a uma só. Mas um que sempre leio é o Monitorando.
Luiz Valério – Como comunicador e professor, qual a sua análise sobre a contribuição que os blogs podem dar para a democratização da comunicação num país como o Brasil, onde os grandes veículos de comunicação estão concentrados nas mãos de poucas famílias, que por usa vez os usam de acordo com os seus interesses?
Pedro Serra – O blog permite a você criar um veículo de baixíssimo custo, com um alcance enorme e sem imposições quanto ao texto. A blogosfera deu um espaço a quem antes falava para as paredes. Agora, utilizando uma frase que ouvi em um vídeo sobre o assunto, nós somos “formiguinhas com megafones”, e fazemos muito barulho. Se não fosse pelos blogs, íamos ficar sem saber de muita coisa que acontece por aí, simplesmente porque os jornais não querem, não podem ou mesmo não têm espaço para publicar.
Mas não é só isso, a blogosfera permitiu que uma pessoa que goste de jogar peteca crie um blog sobre o assunto. Diga-me quando nós teríamos um veículo de penetração nacional especializado neste grande jogo inventado no Brasil.
Luiz Valério – A blogosfera brasileira parece estar começando a se profissionalizar. Grandes portais de conteúdo como o IG, G1, Terra, entre outros, estão se interessando pelos blogs a ponto de firmar parcerias com blogueiros pioneiros como o Edney de Souza [agora parceiro do IG]. Como você avalia esse momento?
Pedro Serra – A imprensa notou que as mudanças que a web 2.0 vêm trazendo são inevitáveis. Hoje, qualquer um com um blog e um celular com câmera é “jornalista”. Eles sabem que remar contra a maré cansa, cansa e não dá em nada… Aquele famoso ditado já dizia, “se você não pode vencê-los, junte-se a eles”. É isso que os jornais vêm fazendo.
E não é só com blogueiros, o portal de notícias da Rede Globo, por exemplo, criou uma seção chamada “Você no G1″, onde o internauta envia sua notícia ou foto para ser publicada pelo site. Com isso, eles agora têm jornalistas em todos os cantos do Brasil e do mundo, sem pagar nenhum centavo por isso. Acredito que os jornais têm sido mais espertos e rápidos que a indústria fonográfica ao entender essas mudanças e se adaptar a elas.
Luiz Valério – Você concorda, no entanto, que a blogosfera tupiniquim ainda esteja alguns passos atrás dos blogs americanos e portugueses, que já têm um certo peso enquanto veículos alternativos de comunicação, com capacidade para influenciar na opinião dos leitores em questões como eleições presidenciais, por exemplo?
Pedro Serra – Aí eu acredito que seja também uma questão de alcance. Nos EUA, cerca de 152 milhões de pessoas acessam a internet, segundo um estudo da comScore Networks divulgado no ano passado. Isso é quase a metade da população do país. Já Portugal ocupa o quinto lugar no ranking da União Européia dos países onde a internet tem a maior penetração, com 60% de sua população conectada à rede, conforme uma pesquisa do ICANN. No Brasil, são apenas 30,1 milhões de usuários, sendo que apenas 19,3 milhões são usuários ativos, ou seja, aqueles que acessam a internet pelo menos uma vez por mês, segundo os dados do Ibope/NetRatings deste mês. Só com esses dados você já pode ter uma idéia do que acontece. A internet está nas mãos de poucos, e geralmente os que têm acesso de uma forma regular são pessoas da classe média e alta. Para influenciar uma eleição, a internet teria que chegar aos bolsões onde o Bolsa-Família está, às cidades do interior onde os políticos têm as suas rádios e concessões de TV, aos brasileiros que mal sabem ler e escrever. Não adianta o blogueiro escrever bem, gritar e espernear, pois seu alcance é limitado a uma pequena parcela da população.
Luiz Valério – A propósito, qual a sua percepção do impacto que o jornalismo cidadão e os blogs estão causando e ainda poderão causar no espectro comunicacional brasileiro e internacional?
Pedro Serra – Acho que o maior impacto é democratizar a informação, tirando-a das mãos de um grupo pequeno controlado por pessoas ligadas a interesses comerciais e políticos e passando para pessoas com diferentes visões e percepções sobre um mesmo assunto. Outro impacto é a mudança que isso força nas empresas de comunicação, que se vêem obrigadas a entender e acolher esse público barulhento, além de agora serem fiscalizadas por eles. Mas para realmente sentirmos esse impacto, a internet tem que chegar a mais pessoas, a educação tem que melhorar no Brasil e muitas outras coisas têm que mudar. Porque se mesmo com os grandes jornais e revistas gritando contra a absolvição de Renan Calheiros ele foi absolvido, que impacto nós blogueiros temos?
Luiz Valério – Para grande parte dos estudiosos do fenômeno, o surgimento dos blogs, a partir da segunda metade da década de 1990, consiste na maior revolução no mundo da comunicação desde a massificação da técnica de impressão por Gutenberg, pois deu ao cidadão comum, ao não jornalista, a possibilidade de ter o seu próprio veículo de comunicação. Você concorda com esse pensamento?
Pedro Serra – Hummm, deixe-me pensar… acho que cada revolução na comunicação teve sua época e seu propósito, e não acho que podemos dizer que uma seja maior do que a outra. O rádio levou a informação a milhões de pessoas, a televisão trouxe as imagens, a internet, em sua primeira geração, globalizou a informação. Porém, em todos esses casos, a comunicação estava nas mãos de grupos, que controlavam como, onde, quando e porque elas deviam ser publicadas. Agora, com a internet 2.0, veio o conteúdo colaborativo, a mídia gerada pelo usuário. Todas as invenções anteriores democratizaram a informação, porque foram aumentando o alcance dela, levando a mais e mais pessoas. A revolução de agora é apenas mais um passo, e com certeza vem mais mudanças por aí.
Luiz Valério – Na sua avaliação, a “mídia convencional” está começando a aprender a conviver com os blogs, uma vez que alguns dos maiores veículos pelos menos já tiveram que se render à prática irreversível do jornalismo com a intervenção do público, o chamado jornalismo colaborativo ou jornalismo cidadão?
Pedro Serra – Sim, o exemplo da indústria fonográfica demonstrou que “camarão que dorme a onda leva”. Os jornais até cochilaram, mas acho que estão acordando a tempo de se adaptar a essas mudanças. Muitos ainda resistem, mas aí a seleção natural, mais uma vez, vai se encarregar deles. “Survival of the fittest”, a sobrevivência dos mais adaptados, teoria de Charles Darwin, se aplica também às mídias impressa e eletrônica.
Luiz Valério – Para fechar a nossa conversa com uma pitada de polêmica: qual a sua análise da qualidade do jornalismo praticado no Brasil atualmente? E mais: a forma como a notícia é tratada em alguns casos não deixa a mídia convecional na berlinda, igualmente como esta faz ao questionar a credibilidade dos blogs?
Pedro Serra – Fiz uma análise do jornalismo no Brasil na minha monografia, que está disponível no meu blog, então falo sobre isso embasado no que dizem muitos estudiosos do tema. A imprensa de um modo geral, não só no Brasil, está cada vez mais dependente de fontes oficiais, de press-releases, de dossiês, e menos preocupada com a apuração. “O Ministro declarou que…”, “segundo a assessoria de imprensa de fulano de tal…”, “documentos obtidos por nós demonstram que…”. Mas e aí, será que as informações que eles vêm recebendo têm credibilidade? Os jornais não checam mais as informações que recebem, seja por preguiça, por falta de pessoal e tempo, ou por ter como fontes pessoas ligadas a seus interesses. Com isso, acabamos ficando com apenas um lado da história, geralmente o lado do mais forte. Isso sem falar nos interesses.
A maioria das empresas de comunicação tem também outros negócios Vou citar aqui exemplos americanos porque são os que tenho a mão. A Disney controla a ABC, a AOL Time-Warner controla a CNN, a ViaCom controla a CBS e a GE controla a NBC. Dá para fazer um jornalismo isento assim?
No Brasil ainda tem a questão das concessões. Antônio Carlos Magalhães, antes de morrer, detinha o controle de diversas concessões de rádio e televisão na Bahia, os Sarney no Maranhão, os Collor de Mello em Alagoas. Por meio de testas-de-ferro, Jader Barbalho tem concessões de rádio. Renan Calheiros também. Isenção??? José Sarney distribuiu concessões a torto e a direito para aprovar o mandato de cinco anos na assembléia constituinte em 88. Fernando Henrique o fez visando a reeleição. Lula está meio engessado por uma lei de FHC que diz que apenas as concessões educativas podem ser distribuidas. Bom, ele já distribuiu sete dessas concessões a políticos. Sabe quem tem (ou pelo menos tinha) uma emissora educativa? Sérgio Naya, aquele do Palace II, prédio que desabou no Rio de Janeiro.
Nota do Editor: Os links contidos nos títulos das entrevistas remetem ao blog original em que elas foram públicados, mas que já não é mais atualizado por este editor.


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